Sonny Rollins e a Teoria Psicanalítica de Freud

por janeiro 23, 2016Blog

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[ARTIGO PUBLICADO NO SITE MAISMUSCABLOG]

A carreira do octogenário saxofonista americano Sonny Rollins, um dos pilares do jazz, segue em constante expansão. Além do reconhecimento de toda a comunidade jazzística internacional, Rollins ganhou dois Grammys e diversos outros prêmios, dentre eles o National Medal of Arts and Humanities, entregue pelo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, em 2011.

De fato, é obrigatório a todos os jazzistas do mundo conhecer os seus principais discos e saber de que forma ele influenciou e contribuiu para a expansão do jazz, além de executar de memória suas principais composições.

À época em que estudei nos EUA, fui apresentado ao universo sonoro de Rollins através dos exercícios de transcrição e análise dos seus solos. No intuito de complementar minha pesquisa, comprei a recém-lançada biografia intitulada Open Sky: Sonny Rollins and His World of Improvisation, escrito por Eric Nisenson, com prefácio do próprio Rollins.

O livro foi bem mais do que eu esperava! De acordo com Lucille Rollins, sua esposa, a biografia revelou fatos que ela mesma desconhecia.

Além dos enormes detalhamentos históricos sobre alguns momentos cruciais no desenvolvimento do jazz em que ele esteve envolvido, foram as informações sobre a personalidade do músico que mais chamaram a minha atenção.

De acordo com o autor, Rollins sempre buscou estímulos que pudessem sugerir novos caminhos para os seus solos improvisados. Em uma passagem, Nisenson relata um método nada convencional adotado por Rollins para estimular a sua criatividade durante a improvisação: a contratação de um músico despreparado e sem qualificação para tocar em seu grupo.

O quinteto, formado por saxofone, trompete, piano, baixo e bateria, tinha os dois instrumentos de sopro na linha de frente. O tal trompetista, que não teve sua identidade revelada, não conseguia tocar afinado, improvisava inadequadamente desrespeitando a forma da música e a progressão dos acordes, e se demonstrava muito inseguro e despreparado.

Tal discrepância tinha um único objetivo: criar tensão entre os músicos. A tensão psíquica os incitava a sentir raiva, a ficarem agressivos durante a performance. Tal agressividade era despejada durante as improvisações e, como conseqüência, servia para estimular a criatividade durante os solos.

Não creio que Rollins tivesse conhecimento da Teoria Psicanalítica desenvolvida pelo psiquiatra austríaco Sigmund Freud, mas está claro que ele criou, a partir desta experiência, um cenário adequado a seus pressupostos.

De forma bastante superficial, a teoria psicanalítica assume a agressividade como um impulso natural humano, um potencial energético que deve ser controlado. Amansar essa tendência natural do homem gera no indivíduo um estado de tensão psíquica interna que deve ser resolvido. A energia psíquica acumulada, quando canalizada e elaborada para fins construtivos, atua como uma força motriz no processo criativo.

Não foi à toa que Sonny Rollins influenciou gerações e gerações de músicos. Sua capacidade criativa, sempre à prova do seu próprio crivo, está evidente em seus solos originais. Ele compreendeu, ainda que de forma intuitiva, os meandros da psique humana, expressos através da sua arte.

Porém, na única oportunidade que tive de conversar com o Sr. Rollins, perguntei-lhe sobre a veracidade do fato. Ele, com um olhar pensativo como quem busca algo há muito tempo esquecido, respondeu: ‘Não me lembro, mas não seria uma má ideia!’

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Para maiores infos: www.sonnyrollins.com

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